domingo, 12 de Julho de 2009




Ela abriu o frasco e os dois ficaram boquiabertos a olhar para o interior.
-Ena, há quanto tempo a tens?- perguntou ele, balouçando como uma criança irrequieta pelo equador do seu pescoço.
Ela olhou-o em sorriso aberto, afastando o cabelo com a mão e cerrando os lábios, segredou - Não faço ideia, estava esquecido na caixa grande debaixo da cama.

Fizeram silêncio.

Pousou o frasco cuidadosamente ao fundo da cama, os dois deitaram-se de barriga para baixo, queixos paralelos em dois vértices de triangulos desiguais.

Fizeram silêncio, o mundo rodopiou.

domingo, 7 de Junho de 2009

Pax RoMana

Domingo, 11 horas, dia de eleição para pessoas se sentarem em cadeiras numa cidade do norte de França.
Estou sentado numa esplanada, redeado de matizes de verde, entrelaçadas em outras cores amigas, pessoas conversam sobre o que têm de conversar, desfolham jornais e bebericam café e ócio. Eu mantenho-me vivo e em estado de felicidade.Tiro os óculos escuros e saboreio o cigarro mal enrolado, também os cigarros têm direito à assimetria e eu sinto-me assimétrico, em calma e gritante. A liberdade é andar de mão dada com quem se ama. Não vou votar.

sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Fantásticas músicas xoninhas

Adam Green - Drowning head first

domingo, 31 de Maio de 2009

Medusa e Argus




Os mortos, os moribundos, os deserdados, os sem nada, os abandonados, os que se agarram à vida no corpo dos outros, batidos pelos elementos, do mais cruel o humano, agitam a esperança desesperada sob a jangada quebrada , os gritos saem da cena e invadem-nos em pleno século digital.

quarta-feira, 27 de Maio de 2009


Os homens, paralelos e pesados
autómatos em série
de rugas e vincos
de sustento e força

E a cidade
sob o crepúsculo
inerte e acessa
inatingível
tanto mar até lá
tanto mar...

domingo, 17 de Maio de 2009

Hoje , no Museu do Chiado

Cores da arte vanguardista na Roménia 1910-1950


Marcel Iancu - A noite



Apcar Baltazar - Adão e Eva


Camil Ressu - Camponesas na Igreja

sábado, 16 de Maio de 2009

Pequenos contos de amor sobre campos de ténis -II

O céu éburneo e pardacento não augurava nada de bom, pensou Zakri, olhando pela janela do seu 53º andar, enquanto fritava as duas últimas salsichas da sua última lata. Lembrou-se da sua infância em Tazrovlek e da estranha parecença das mulheres da aldeia, com o aspecto tostado que adquiria os cilindros comprimidos de carne de porco, pelo menos a semelhança com as mais bonitas.
Ligou a televisão, meias finais do Torneio de Wimbledon. A relva aparada a esquadro e régua era selváticamente agredida por um objecto amarelo, esférico e com pêlos.
Zakri fez uma careta, na sua aldeia não havia relva, só pedras e poeira amarela, definitivamente preferia Roland Garros. Metafisicamente, espreitou de soslaio para a janela e num impulso abriu o trinco e escancarou-a.
Então, amarrou o avental à cintura, pegou na frigideira, deixando escorrer o azeite quente pelas pernas e agarrando no único ovo que lhe restava, olhou o vazio em frente. Janela aberta, mundo aberto, aldeia em vislumbre, águias em planantes desafios sorrindo sardónicamente, e lançando com a mão esquerda , num gesto bailarino o ovo, em câmara lenta a rodopiar em ascensão, desferiu uma pancada seca, quarenta centimetros acima do zénite da sua testa e pela janela voou o concepturo oviforme.

E gritou , deixando-se cair de joelhos, rangendo as rótulas:
" Jogo, set e match para Zacri, que se foda Wimbledon "